Taro Terapeutico O Carro

 

“O eu utiliza a psique individual como meio de comunicação. O homem, por assim dizer, é propelido ao longo da estrada para a individuação.”

Jung

No Enamorado, o herói foi imobilizado na encruzilhada: este régio personagem parece saber aonde vai e já estar a caminho. Elevado acima da humanidade pedestre e enquadrado por quatro colunas, chama a nossa atenção. Não obstante, o título da carta é O Carro; o que implica que somos induzidos a considerar-lhe o veículo primeiro que tudo.

A jornada exterior não é apenas um símbolo da jornada interior, mas também o veículo para o nosso autodescobrimento. Aprendemos a respeito de nós mesmos através do envolvimento com outros e do enfrentamento dos desafios do nosso meio. Toda jornada oferece inúmeras oportunidades de novas percepções e nos expõe ao risco da desorientação. O fato de ficar sozinho numa terra estranha, sem o apoio da família, dos vizinhos ou dos amigos, cria certo tempo de verdade quando o herói pode descobrir quem realmente é - ou pode ser destruído pela experiência. Simbolicamente, o carro tem poderes celestiais que fazem dele um carregador ideal para a jornada rumo à individuação. Como o Carro do Sol, é o Grande Veículo do Budismo esotérico. Talvez o Taro pretenda mostrar-nos que esse carro tem igualmente qualidades mágicas. No desenho total, assemelha-se às ilustrações do carro de Ezequiel. Ambos são, com efeito, tronos móveis, com quatro colunas que suportam um baldaquino, desenho ainda observável nos dias atuais no palanquim em que o papa é carregado durante as procissões religiosas. Que as figuras centrais do Carro e do Papa estão intimamente ligadas entre si evidencia-se pelo desenho semelhante das duas cartas. O carro parece simbolizar com propriedade o poder transportante da psique. A psique não é um objeto, uma coisa; é um processo. Sua essência é o movimento. Assim como a paisagem externa passa por nós quando viajamos, assim diante do olho interior as imagens se sucedem numa constante fita de cinema. São as imagens que sintonizamos quando fechamos os olhos para as coisas externas e subimos no carro para uma viagem interior. Semi vislumbradas, às vezes totalmente não reconhecidas, tais imagens afeiçoam nossa vida e nossos atos. Contêm a semente vital da vida.

O número sete do Carro liga-o ao fado, ao destino, e à transformação. Num par de dados, os lados opostos de cada dado somam sete. Foram enumerados sete atos separados de criação no Gênese, e no processo alquímico há sete estádios de transformação sob o influxo de sete metais e sete planetas. Na filosofia oriental temos a lei séptupla da harmonia divina e os sete chacras. Não é, portanto, muito para admirar que O Carro assinale o início de uma nova era. O Carro retrata um estado de inflação do ego que os antigos denominavam hubris. O que representa, em termos psicológicos, uma condição em que o ego, ou centro da consciência individual, se identifica com (imagina haver-se tornado) uma figura arquetípica que transcende as limitações humanas. A despeito das características negativas da situação do herói, O Carro assinala importante ponto crítico no seu desenvolvimento. Conquanto possa ser identificado com o seu nobre eu, tomou consciência da sua existência. Começou a experimentar o jovem e vigoroso princípio diretivo como entidade interior, um poder ao qual se sente intimamente ligado. Já não projeta toda a sabedoria e toda a autoridade em várias figuras barbudas de proporções sobre-humanas, sentadas imóveis em tronos distantes. Principia a sentir que não precisa cruzar oceanos nem escalar montanhas na busca de conselhos e pareceres. Como disse Jung repetidamente, a psique é um sistema que se regula a si mesmo. Enquanto o consciente e o inconsciente estiverem ativos, o carro poderá inclinar-se violentamente de um lado para

outro, mas terá menos probabilidades de virar do que teria se apenas um membro da sua parelha estivesse operando. Se você olhar novamente para a carta número sete do Taro, verá como isso é descrito. Embora os cavalos que puxam o carro para a frente não pareçam estar puxando juntos, podem, equilibrando as tendências um do outro, manter o veículo na estrada, ao passo que um cavalo de qualquer uma das cores poderá dar com ele no fosso. Como sugerem esses cavalos espantados, e como reitera o título da nossa fileira horizontal seguinte, o problema mais importante agora é o equilíbrio. Durante todo o percurso deparar-se-ão ao herói novos e enigmáticos paradoxos, que lhe porão em xeque a capacidade de manter a harmonia e o equilíbrio.

Uma charada implícita nesta carta e que continuará a atormentar lhe o intelecto (e o nosso) à proporção que seguirmos para a frente, é esta: o ego insignificante não é o cocheiro régio; entretanto, quanto mais tiver consciência disso, tanto mais florescerá como ser humano de estatura real.

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